Na segunda noite do Carnaval 2025, oito escolas de samba se apresentaram na Sapucaí, cada uma trazendo seu enredo e enfrentando os desafios inerentes à organização da avenida, à rigidez dos tempos estabelecidos e à pressão por uma apresentação impecável. O cenário foi marcado por contratempos técnicos, ajustes de última hora e a necessidade constante de conciliar tradição com inovação. A seguir, um panorama que destaca os desfiles das agremiações.
Tradição
Após 10 anos afastada da avenida principal, a escola Tradição retornou com o enredo “Reza”, propondo uma reflexão sobre a pluralidade da fé e o papel do sagrado na vida cotidiana. O espetáculo apresentou alegorias que mesclavam imagens controversas com momentos de claridade e espiritualidade, especialmente na comissão de frente, onde figuras ambíguas sugeriam tanto a crítica quanto a celebração dos mistérios religiosos. Apesar dos esforços para compor um cenário rico em simbolismo, a agremiação enfrentou os limites de tempo, sendo forçada a acelerar para fechar seu desfile dentro dos 55 minutos estipulados. Esse fato evidenciou, as pressões logísticas e os desafios para traduzir, em poucos minutos, enredos de tamanha profundidade.
União do Parque Acari
No enredo “Cordas de Prata – O Retrato Musical do Povo”, a União do Parque Acari resgatou a trajetória do violão, instrumento que simboliza a resistência e a identidade cultural popular. A escola transformou a avenida em um espaço que, de maneira direta, exaltou o papel da música na construção da memória coletiva. O desfile se destacou pela organização dos componentes e pela clareza na transmissão da mensagem. Cada movimento e cada acorde das alegorias reforçaram a ideia de que a cultura musical brasileira é resultado de um encontro de tradições e influências, tornando o espetáculo, além de artístico, um ato de preservação histórica.
Acadêmicos do Vigário Geral
Com “Ecos de um Vagalume”, os Acadêmicos do Vigário Geral trouxeram para a Sapucaí uma narrativa inspirada na crônica urbana. O enredo procurou retratar, a realidade das ruas do Rio, onde a luta diária e a esperança coexistem. A comissão de frente e as alas trabalharam para traduzir as histórias dos que vivem à margem, trazendo à tona a tensão e a beleza da vida urbana. Durante o desfile, foram evidenciadas referências diretas à vivência comunitária, o que fez com que a apresentação se configurasse como um retrato sincero das dificuldades e das esperanças de um povo que se recusa a se silenciar.
Unidos de Bangu
Em “Maraka’anandê – Resistência Ancestral”, os Unidos de Bangu reafirmaram o vínculo com as raízes indígenas e com a memória dos povos que resistiram à marginalização histórica. O enredo foi exposto de forma direta, destacando a força e a luta que, mesmo diante das adversidades modernas, continuam a marcar a identidade de um povo. Pequenos percalços técnicos foram superados durante o percurso, mas a agremiação manteve o foco na mensagem central de resistência e preservação das tradições ancestrais. Cada detalhe, das alegorias aos momentos coreografados, reforçou a ideia de que a cultura e a identidade não se apagam, mesmo quando enfrentam os desafios do tempo.
Unidos do Porto da Pedra
A apresentação de “A História Que a Borracha do Tempo Não Apagou” foi um dos momentos mais densos e carregados de crítica do desfile. Inspirados pela história de Fordlândia e pela exploração na Amazônia, os Unidos do Porto da Pedra buscaram expor, de maneira real, a tensão entre o projeto industrial e a resistência dos povos indígenas. A comissão de frente realizou um “Ritual do Fogo” que simbolizou a luta contra a exploração desenfreada dos recursos naturais e a preservação de territórios sagrados. Elementos como o desempenho do primeiro casal – apresentados sob a alcunha de “Espíritos da Mundurukânia” – ajudaram a ilustrar, sem floreios, a complexa relação entre progresso e destruição, convidando o público a refletir sobre as consequências históricas e sociais desse conflito.
São Clemente
O enredo “A São Clemente Dá Voz a Quem Não Tem” transformou a avenida em um espaço de debate social. A escola optou por uma abordagem sem excessos, apresentando alegorias simples e diretas que denunciam maus-tratos e promovem a adoção de animais, temas que têm ganhado relevância na sociedade atual. A proposta da agremiação foi utilizar o samba como veículo para dar visibilidade a vozes historicamente marginalizadas, evidenciando a importância da inclusão e da responsabilidade social no contexto carnavalesco. O desfile, sem adornos exagerados, se fez presente como um lembrete de que o Carnaval também pode ser um instrumento de conscientização.
Acadêmicos de Niterói
Com “Vixe Maria”, Niterói trouxe à Sapucaí elementos da cultura nordestina e das festas juninas, integrando-os a uma narrativa visual que valorizou a brasilidade. O desfile se destacou pelo uso de cenários coloridos e alegorias que, embora simples, conseguiram captar a informalidade e a energia das festas populares do interior do país. Essa apresentação mostrou, de forma despretensiosa, que o Carnaval pode ser tanto uma celebração quanto um reflexo do cotidiano, onde a alegria e a autenticidade se manifestam sem artifícios desnecessários.
Império Serrano
Por fim, o enredo “O Que Espanta Miséria é Festa” foi utilizado pelo Império Serrano para homenagear o compositor Beto Sem Braço e reafirmar a ideia de que a festa possui o poder de transformar realidades. Mesmo diante de problemas na confecção das fantasias devido ao incêndio, a escola apresentou cenários que enfatizavam a luta contra a miséria e a possibilidade de renovação através da celebração. A narrativa foi construída de maneira direta, enfatizando que, apesar dos desafios, a arte e o samba são instrumentos capazes de gerar esperança e de unir comunidades em torno de ideais de superação.